domingo, 2 de maio de 2010

De Nossa Senhora

Por Cecília Meireles
Comentário de Sérgio Gonçalves


Mês de Maio principiou. Maria louvada mais uma vez. E mais preces. E mais "devoção". Como Meireles, entendo Nossa Senhora de maneira particular: muito do que nesta poesia vem a ser dito também a mim fala sem consolo, mas melhor maneira não se tem. Que majestade por demais esclarecida será capaz de compreender as baladas meirelianas que nem a seguinte? Talvez seja monarca protestante? Somente rude? Não sei. Porém desejo compartilhar convosco tal poema que diz absurdamente dos momentos que passei nos meus últimos quase seis anos de separação das hostes do catolicismo. Lembro das ladainhas nas repetições dos versos, repletas de pedidos agora malogrados em suas intenções; da nossa triste condição, cada vez mais piorada pelas situações insanas infelizmente presentes conosco; de meu "corpo inerte", da minha "alma em cruz". Nunca perdi meu carinho pela Virgem, esta Mulher, este símbolo... Saber daquilo que nos diz o verso final vem a ser orfandade das piores. Portanto leiam o canto que deveria ser ouvido nos festejos marianos: boa leitura! Nossa Senhora das Dores, da paróquia que frequentei religiosamente durante minha profissão de fé, vem em imagem na companhia das letras.


Nossa Senhora já não ouve
Os amargurados gemidos
Dos que estão mal, dos que estão sós...
Tanto choro e lamentos houve
Que os seus santíssimos ouvidos
Não percebem nenhuma voz...

Nossa Senhora já não ouve...

Nossa Senhora já não sabe
Das coisas tristes deste mundo,
Em que se chora e se descrê...
Nada mais há, nada mais cabe
Nos olhos seus, de luar profundo...
Nossa Senhora já não vê...

Nossa Senhora já não sabe...

Nossa Senhora já não sente
Os corações amortalhados
Nas suas mãos de rosa e luz...
Por muito tempo, muita gente
Desceu-lhe aos braços desolados,
De corpo inerte e de alma em cruz...

Nossa Senhora já não sente...

Nossa Senhora, toda pura,
Não pensa mais no que se passa,
Do amor à morte, em cada ser...
Nossa Senhora, lá na altura,
Em plenos céus, em plena graça,
Já nada mais pode fazer...

Nossa Senhora toda pura...

E em vão se pede, e em vão se implora,
Do deserto amargo da vida,
Um consolo, um carinho seu!
Muito tarde! Impossível hora!
Nossa Senhora está perdida...
Nossa Senhora já morreu...

Não temos mais Nossa Senhora!...

Um comentário:

  1. Gostei do texto e do poema e bem sei do verso final ou sabia... bjos...

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